O Reencontro no Tribunal da Vida
- 8 de mai.
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BOM DIA!

BOM DIA!
Tribunal não é lugar de milagre. Ali se julgam prazos, provas, sentenças. Mas foi lá que a vida resolveu dar sua absolvição mais bonita.
Eu entrava no fórum federal com a pressa de sempre, celular na mão, pasta fria na outra. Processo emperrado, rito ordinário. A rotina tinha gravata e cheiro de papel velho. Até que o reconheci frente a frente. A postura era a mesma, mas o corpo não. Estava mais cheio, mais presente.
Da última vez que o vi, Artêmio não tinha forças para levantar da cama. O câncer tinha dado sentença: “questão de meses”. Lembro do abraço frouxo que demos no hospital, do tubo, do silêncio que dói mais que qualquer palavra. Saí de lá contando os dias que ele não teria. Enterrei meu amigo antes da hora, como a gente faz quando o medo é maior que a fé.
“Artêmio?”
Ele sorriu bonito e me chamou de Baixinho como sempre. Não tinha mais a palidez de quem vive de soro. Tinha cor. Tinha um boné bonito na cabeça. Tinha um sorriso que desmentia laudo médico.
Por um segundo, o fórum parou. O balcão, o balbúrdia, tudo ficou mudo.
“Ô, Baixinho”, ele disse, e me puxou num abraço que quase quebrou minha toga imaginária. Forte. Vivo. Inteiro. Me beijou a face.
Descobri ali, entre um “como você está?” e um “não acredito”, que a alta veio há meses. Que a quimio foi guerra, mas ele venceu cada batalha. Que voltou aos Tribunais semana passada. “Primeira audiência hoje”, disse, ajeitando a pasta. “Igual você”.
Rimos. Do acaso, do destino, da ironia de marcar nosso reencontro no lugar onde se decide tanta vida e tanta perda. Choramos também, porque homem que é homem chora quando a morte perde o processo.
A juíza que nos espere. Naquele corredor, com cheiro de café requentado e esperança, celebramos a única sentença que importa: viver.
Nem brindamos, porque o brinde era a vida.
Tribunal virou templo. E eu saí de lá absolvido daquela tristeza antiga. Porque reencontrar um amigo que voltou da beira é lembrar que, no júri da existência, a gratidão sempre ganha por unanimidade.
A VIDA QUANDO QUER, DÁ UM JEITO DE RECORRER.
Gratidão sempre



A vida e como a agua, sempre encontra uma saida...