O Peso do Seu Bom Dia
- 15 de mai.
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BOM DIA!

Seu Antônio acorda todo dia às 4h47. Não por escolha. O relógio interno dele quebrou na noite em que a filha saiu de casa sem dizer pra onde ia. Faz três anos.
De dia, Seu Antônio é o porteiro do prédio. Abre portão, recebe encomenda, dá bom dia com um sorriso que tem covinha. As moradoras dizem: "Seu Antônio, o senhor tem uma paz". Ele responde: "A vida é boa, dona Lúcia". Ninguém desconfia que a paz dele é treinada.
Porque só quem já passou noites em claro sabe como as madrugadas são compridas. E as dele têm 180 minutos a mais que as dos outros. Entre 1h e 4h, o corredor do apartamento vira deserto. Ele anda de um lado pro outro com a xícara de café frio, revisando conversas que nunca teve, costurando o coração com linha invisível.
Quantas vezes entregou um pacote sorrindo enquanto o peito ainda sangrava? Perdeu a conta. A dor não pede licença pra trabalhar. Mas ele aprendeu: propósito não aparece quando a gente tá sangrando. Propósito é o que a gente enxerga depois, quando olha pra trás e vê que aguentou.
Outro dia o menino do 302 falou: "Tio Antônio, queria ter sua vida. O senhor tá sempre tranquilo". Seu Antônio riu. Não por deboche... Por lembrança.
Se soubessem. Se soubessem que força a gente só descobre quando não tem outra opção. Que resiliência não é post de Instagram. É levantar da cama quando o corpo pesa tonelada. É fazer da tempestade uma brisa porque, se não fizer, ela te afoga.
Ele não conta pra ninguém. E talvez seja assim mesmo. Cada um carrega seu deserto particular. Cada um sabe o tamanho da sua noite.
Às 5h em ponto, Seu Antônio abre o portão do prédio. O primeiro morador que passa recebe o de sempre: "BOM DIA!".
Só ele sabe o peso que essa frase carrega. E a gratidão que vem junto.
QUE HORAS SÃO NO SEU RELÓGIO?
Gratidão sempre



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