O Ofício do Silêncio
BOM DIA!

Eu gosto do silêncio porque nele ninguém mente. Aprendi isso com o Beto.
Beto era meu vizinho da frente, aqui no Clube Nova Flórida. Ele tinha uns sessenta e poucos anos e passava a tarde inteira na cadeira da varanda. Não falava muito. Quando a gente se cumprimentava, ele só levantava a mão e sorria. No começo eu achava que era tristeza. Depois entendi que era escolha.
Esses dias, antes de partir, sentei com ele. Sem motivo. Só sentei na mureta e ficamos olhando a rua. O calor ia embora devagar, as cigarras começaram. Nenhum de nós dois disse nada por quase meia hora. E foi a conversa mais honesta que tive naquele dia. Ele estava doente. Muito doente.
No barulho, todo mundo promete, todo mundo explica, todo mundo jura. No silêncio, não. No silêncio Beto não precisava me dizer que a saudade da mulher dele ainda doía, eu via. Eu não precisei dizer a ele que andava cansado, ele percebia. No silêncio nos entendemos.
É por isso que eu gosto. No silêncio, ninguém inventa uma versão melhor de si mesmo. Não faz promessas que não podemos cumprir. A gente só é. A gente vê. A gente sente. Não precisamos dizer uma única palavra.
Foi a última vez que nos vimos e não trocamos palavras. Desta vez a despedida foi um aperto de mão e lágrimas nos olhos. Em silêncio.
Hoje Beto não se senta mais ali. Continua mudo, agora para sempre.
MAS DAQUI EU AINDA OUÇO SEU SILÊNCIO ATÉ O MEU CHEGAR.
Gratidão sempre



A Vida é unica, os Sistemas nunca sao compostos pelas mesmas Consciencias, portanto, amar é tudo!