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O Melhor da Vida

  • 18 de mai.
  • 3 min de leitura

BOM DIA!


Homem refletindo ao amanhecer em quarto simples, cercado por memórias da fé da mãe e do trabalho do pai.

Deus acorda antes de mim. Suspeito disso porque, quando abro a janela, o sol já está posto na mesa como um pão quente. Minha mãe chamava isso de milagre. Meu pai chamava de "hora de levantar e trabalhar".


Mãe tinha fé no jeito de dobrar a roupa. Orava baixinho enquanto estendia o lençol no varal, como se cada prendedor fosse um pedido. Pedia por saúde, por juízo, por mim. Não pedia muito pra ela. Dizia que Deus já tinha dado o que precisava: um filho pra amar e um marido honesto pra dividir a vida.


Pai era homem de calos na mão e preocupação no olhar. Saía de casa com o dia ainda escuro e voltava quando o escuro já tomava a rua de novo. Nunca disse "te amo" com a boca. Dizia com o portão consertado no domingo, com o Kichute novo parcelado em seis vezes, com o "comeu direito hoje?" antes de qualquer conversa. A honestidade dele era teimosa. Passava vontade, mas não passava por cima de ninguém. Vivia dizendo que herança mesmo é nome limpo e porta aberta na vizinhança.


Hoje a casa tem menos barulho. O varal está vazio e a marmita não precisa ser feita às cinco da manhã. Não estão mais aqui, mas também não foram embora.


Cresci no meio daquela reza e daquele suor, e é isso que ficou. O melhor da vida não veio em caixa de presente. Veio no café que aprendi a coar sozinho de manhã, no caderno que encapo com cuidado, no "Deus te abençoe" que repito baixinho antes de sair, no "vai com calma" que escuto na memória quando a pressa aperta.

Outro dia me peguei sentado na beira da cama, contando dinheiro pra pagar uma conta. Não falei nada. Só olhei pro mesmo crucifixo que meu pai olhava na parede e voltei a contar. Ali entendi a herança: Deus me dá o dia, a fé da minha mãe me sustenta, e o trabalho do meu pai me ensina a não abaixar a cabeça. Os três, juntos, ainda me dão o mundo.


Por isso a segunda-feira não me pesa. Entro na semana com o ânimo quieto que herdei deles. O ânimo de quem arruma o portão no domingo pra paz da segunda. O ânimo de quem dobra a roupa com calma porque sabe que todo dia merece cuidado. O ânimo de quem levanta cedo não por obrigação, mas por gratidão ao dia que Deus entregou.


Não sei se vou ser rico. Mas já sou. Tive uma mãe que me ensinou a falar com Deus, um pai que me ensinou a falar com o mundo de cabeça erguida, e um Deus que, desconfio, ainda segurar a mão dos dois pra não me faltar nada do que importa.

De noite, quando a casa silencia, o que escuto é o que ficou: a oração da minha mãe guardada no peito e o exemplo do meu pai guiando minha mão. É o barulho manso do melhor da vida continuando. Sem placa, sem foto, sem legenda. Só amor, honesto e ensinado, me acompanhando devagar.


E é com esse amor que a semana começa. No meu tempo, no meu passo, com o coração aquietado. Porque quem carrega essa herança sabe que não precisa correr na segunda-feira. Só precisa lembrar de onde vem.


E VOCÊ, SE LEMBRA?


Gratidão sempre

 
 
 

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