O Café da Dona Cícera

BOM DIA!
Dona Cícera acorda às cinco, todos os dias, há trinta anos. Antes mesmo do galo, ela já está com o joelho no chão do quarto, agradecendo. Não pede muito. Ela só diz: "Obrigada por mais um dia."
Eu perguntei pra ela uma vez, num dia que eu estava de coração bem apertado, como ela conseguia ter tanta fé. Ela me olhou, sorriu com aquele sorriso que só tem quem já sofreu muito e ainda assim escolheu ser doce, e me respondeu com outra pergunta:
"Meu filho, você já percebeu o quanto Deus te ama nos detalhes?"
Eu não tinha percebido. Eu só via o grande. A grande benção, o grande livramento, o grande milagre.
Ela me ensinou a ver o pequeno.
O amor de Deus, ela me disse, está no café que não queimou hoje. No ônibus que você perdeu e depois soube que quebrou na esquina. Na mensagem que não foi respondida. Na porta que se fechou bem na sua cara e que na hora doeu, mas depois você entendeu que era proteção.
"A gente acha que porta fechada é castigo", ela disse, mexendo o açúcar. "Mas às vezes é Deus te livrando de entrar num lugar onde seu nome não seria respeitado."
E os caminhos que se abrem? Ah, ela disse que eles não se abrem atrasados. Se abrem no tempo certo. Quando a nossa mão já está firme o suficiente pra segurar o que a gente tanto pediu.
Dona Cícera já perdeu filho, já passou fome, já dormiu chorando. E mesmo assim, nos dias difíceis, ela repete pra si mesma como quem toma remédio:
"Deus continua sendo Deus. Mesmo quando eu não entendo. Mesmo quando dói."
Hoje eu acordei e lembrei dela. E entendi que gratidão não é só dizer obrigado quando tudo vai bem. É conseguir enxergar cuidado até quando tudo parece silêncio.
Que hoje, a cada hora, a gente consiga ver um pouquinho mais desse amor grande.
DEUS TAMBÉM SE MOSTRA NAS COISAS PEQUENAS.
Gratidão sempre



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