A Caixa Mágica do Seu Gordinho
BOM DIA!

Meu pai se chamava Orias. Mas na rua, era só o Seu Gordinho barbeiro.
Não porque era motorista e barberava. Ele era barbeiro mesmo. Cortava cabelo e fazia barba.
Ele guardava tudo dentro de uma caixa velha de madeira, daquelas de feira, já manchada de óleo, com a tampa meio torta. Parafuso torto, prego sem cabeça, arruela enferrujada, um pedaço de fio, uma molinha de caneta que ele jurou que um dia ia servir.
Eu era menino e ria. "Pai, pra que o senhor guarda essa tranqueira? É lixo."
Ele não respondia. Só batia a tampa da caixa com carinho, como quem fecha um cofre. "Um dia você entende."
E eu não entendia mesmo. Achava exagero. Teimosia de velho.
Até que o fogão deu vazamento. Até que a bicicleta quebrou no meio do caminho da escola. Até que a torneira ficou pingando a noite inteira e a mãe já estava pra enlouquecer. E era sempre a mesma cena: Seu Gordinho se agachava, abria a caixa velha, fuçava dois minutos e falava: "Aqui, ó."
Lá estava. O parafuso exato. A arruela que ninguém mais no mundo tinha, mas que resolvia o nosso mundo inteiro.
Eu demorei pra entender. Demorei anos.
Aquela não era uma caixa velha. Nunca foi.
Era o jeito dele de dizer que nada se perde quando se guarda com cuidado. Que o amor também é isso: juntar pedacinhos que parecem inúteis hoje, pra consertar o que a vida quebra amanhã.
Ele não guardava ferro. Ele guardava o futuro. Guardava a família de ficar na mão.
Hoje a caixa ainda tá aqui, no canto da área. Eu não jogo fora. Não porque eu precise de parafuso. Mas porque de vez em quando eu abro só pra ouvir o barulhinho das coisinhas dele balançando. É o único jeito que eu encontrei de ainda ouvir ele dizer "Aqui, ó."
Saudades, pai. Saudades de você e sua mania de guardar tudo que via.
E VOCÊ? TEM SAUDADE DE QUÊ?
Gratidão sempre



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