Quando o Amor Confunde Proteção com Direção
- Valdivino Clarindo Lima

- 26 de jan.
- 2 min de leitura
BOM DIA!

26 de janeiro de 2026
Há histórias que não se escrevem para explicar o mundo, mas para tentar compreender a si mesmo. Esta é uma delas.
Sempre acreditei que proteger era direcionar. Que amar era garantir segurança.
Que orientar era escolher o caminho mais estável para quem se ama.
Minha filha queria ser artista.
Eu, advogado, homem do Direito, acostumado a lidar com riscos, incertezas e consequências, não via ali um futuro seguro. A arte me parecia instável demais, imprevisível demais, dura demais para quem eu queria proteger.
Insisti. Orientei. Conduzi.
Ela estudou Direito. Tornou-se advogada. Mas não brilhou.
Não porque lhe faltasse inteligência ou caráter - nunca faltaram -, mas porque aquele caminho não era seu.
Eu brilhei. Ela não. E esse contraste cobra um preço silencioso.
O que hoje consigo perceber - com o tempo, com a maturidade e com a dor - é que, muitas vezes, o adulto projeta no filho aquilo que não conseguiu viver plenamente. Não por maldade. Por amor mal compreendido. Por frustração não elaborada. Por medo.
Quando isso acontece, o filho deixa de ser apenas filho. Passa a ser instrumento. Extensão. Projeto. E nenhuma alma nasce para ser projeto de outra.
Minha filha não se ajustou.
Rebelou-se.
Questionou.
Sofreu.
E eu também sofri, embora por muito tempo não tenha sabido reconhecer isso.
Hoje entendo que existem conflitos que não se resolvem com autoridade, títulos ou boas intenções. Existem dores que não se corrigem com disciplina. Existem sonhos que, quando sufocados, não desaparecem, apenas se transformam em ruído interno.
Nem eu morri. Nem ela.
Mas algo ficou pelo caminho.
A vida seguiu. Seguimos.
Cada um carregando suas marcas, seus silêncios, seus aprendizados tardios.
Não escrevo isso para buscar culpa, absolvição ou explicação definitiva. Escrevo porque amadurecer também é reconhecer que nem toda escolha feita com amor gera paz. Às vezes, gera conflito. Às vezes, gera distância. Às vezes, gera uma dor que atravessa gerações.
Talvez a maior lição seja esta: amar não é moldar o outro à nossa imagem. É permitir que ele descubra quem é, mesmo que isso nos assuste.
Hoje, se pudesse dizer algo ao homem que fui, diria apenas:
escute mais.
tema menos.
confie mais na vida do outro.
Porque nossos filhos não nos pertencem.
Eles apenas passam por nós.
Mas evoluem, crescem, superam e conseguem, ainda que na verdade do outro, superá-los. Levou tempo, mas pude ver minha filha se superar, me superar.
E compreender isso, ainda que tarde, também é uma forma de evolução.
Gratidão sempre!



Amor com sabedoria é o estagio evolutivo máximo deste planeta. Ate chegarmos la muitos erros cometemos em nome do amor emocional.