O palco devolvido à memória
- Valdivino Clarindo Lima

- 12 de jan.
- 2 min de leitura
Atualizado: 15 de jan.
12 de janeiro de 2026

No dia da Gala Inaugural, entrei no Teatro como quem pisa em solo sagrado. Não era apenas uma porta que se abria, era o tempo que se reabria, em outra frequência. Antes que qualquer luz se acendesse ou cortina se abrisse, fui tocado por um gesto pequeno e poderoso: um marcador/programa, entregue à entrada, vertical, discreto, quase solene. Ao pegá-lo nas mãos, percebi não era papel. Era memória em repouso.

Na capa, grafismos florais em tom quase invisível. Não enfeitavam. Protegiam.
E no centro daquele silêncio visual, uma árvore se intuía, feita não de traços, mas de nomes que sustentam raízes profundas:
Família
Tataravó — Padille & Pinato
Bisavô — Pinato
Avô — Pinato
Pai — Pinato
A leitura era um exercício de reverência. Começava de baixo, como quem escala o tempo, nome por nome. Nada flutuava. Tudo era continuidade. Não havia vaidade, mas sim pertencimento.
Ali repousava também um ramo de lavanda. Não como adorno, mas como linguagem.
A lavanda fala sem som: fala de cura, de lembrança que resiste ao esquecimento, de um feminino que sobreviveu mesmo sem ter podido florescer.
Na base do material, como se fosse uma âncora silenciosa, lia-se:
A Gala Inaugural do Teatro Marie Padille, de 28 de novembro de 2025 a 5 de fevereiro de 2026, não é somente a inauguração de um teatro. Nem de um edifício. É a restituição simbólica de um destino.

Marie Padille viveu num tempo em que mulheres não podiam sonhar alto, muito menos dançar ou cantar em público. Sua vocação artística foi abafada pelo peso das convenções, mas não destruída. O que não teve palco, virou semente. E essa semente atravessou gerações até florescer, agora, em forma de um teatro que leva seu nome.
Mais do que uma história de família, essa é uma narrativa de reparação silenciosa. Uma arte calada que, finalmente, encontra voz. Um destino negado que, com delicadeza, é restituído.
E então, tudo se alinhou.
Aquele teatro não nasce para entreter. Ele nasce para restituir.
Não é a estreia de um espaço. É o fechamento de um ciclo ancestral.
O que foi silêncio, agora é presença.
O que foi impossibilidade, agora é estrutura.
Marie Padille, que não pôde cantar nem dançar, entrar em cena, enfim.
Não como personagem.
Mas como força invisível que sustenta todo o espetáculo.
Ela não pisa no palco.
Ela é o palco.
Não protagoniza.
Ela torna possível.
E assim, antes mesmo do primeiro aplauso, o Teatro já havia cumprido sua missão mais profunda: devolver à vida aquilo que o tempo tentou apagar, mas que a memória, persistente e amorosa, salvou.
Gratidão sempre



Tempo , atravessando gerações, vem com a intensidade de amor a arte e hoje está edificada com tanto esmero, cuidados e muita dedicação , mostra o tamanho e a Força que tudo isso foi firmado e sentido no passado em seu ser por Marie Padille , que na época teve que se calar, sufocando todos esses sentimentos.
Hoje todas essas emoções , frustrações caem em terra, e está ai uma OBRA DIGNA DE 1°MUNDO, TEATRO MARIE PADILLE, Liberando vozes, liberando atuações, indo de encontro com o pulsar emocionante de artistas que mesmo neste século não tinham encontrado um lugar onde seu grito à LIBERDADE DE EXPRESSÃO , pudesse ser ouvido.Obrigada a essa Obra magnífica que Dra Edna Pinato, executou c…
Nossa! Que texto lindo! Muito emocionante! A história do teatro é realmente incrível!
Emocionante sua sensibilidade e carinho ao descrever sobre sua experiência no Teatro Marie Padille e tudo o que ele carrega como memória viva. Dá para sentir a força da história, o pertencimento, o reconhecimento e esse renascimento silencioso que se mantém e se atualiza ao longo das gerações voltadas para a arte. Viva o teatro, viva a arte que nos reúne e nos atravessa.
Que essa “reparação silênciosa” traga a paz merecedora da conquista de Padille! Parabéns teatro, que muitas vozes, corpos e almas possam brilhar em seu palco!
Quanta sensibilidade nesse texto. A história do teatro é linda!