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O Amor Pode Nascer no Deserto

  • há 6 dias
  • 2 min de leitura

BOM DIA!


Ilustração editorial de mulher vendendo água no trânsito da Av. Brasília, com lenço florido e flores brotando no asfalto, simbolizando força e esperança.

Tem dias que a vida pede pra gente desacelerar, nem que seja à força. Num desses dias, preso no engarrafamento da Av. Brasília, meu olhar encontrou a Dona Marilda. Ela vende água no sinal há vários anos. Baixinha, fala mansa, unha sempre pintada, cabelo curto. Daquelas presenças que não fazem barulho, mas aquietam a gente por dentro. À primeira vista, parece frágil. Como flor de deserto.


Só que flor de deserto não é só enfeite. É teimosia que brota onde ninguém aposta.


A Marilda, desde que enterrou o marido, criou o filho sozinha. E há algum tempo o chão sumiu de novo: descobriu uma doença maligna. O médico falou: "tratamento agressivo". Ela respirou fundo, pediu dois meses de licença do sinal, e voltou. Careca, de lenço florido na cabeça, com o isopor de sempre. Sol de 40°C batendo na cara às 14h. Às 22h, o mesmo ponto, com o vento frio de junho cortando.


Não tinha espaço pra ela. A vida era rocha pura. Aluguel atrasado, quimio toda sexta, fila do SUS, filho desempregado. A pedra apertava. Mas igual àquela flor que nasce na fresta, ela insistiu um milímetro por dia. Um dia vendia 30 garrafas. No outro, 32. Aprendeu a fazer bolo de pote pra vender junto. Percebeu que às 5h pegava o pessoal da obra. Foi abrindo caminho onde só tinha muro.


O que mais me marca? Ela não endureceu. A escassez não azedou o jeito dela. Continua oferecendo bala pra criança no banco de trás e desejando "Deus te acompanhe" pro motoqueiro estressado. Não virou pedra. Escolheu continuar flor.

Semana passada passei lá. Ela me chamou: "Filho, terminei a rádio. Tô limpa". E sorriu. Não era sorriso de sorte. Era sorriso de quem descobriu que dá pra brotar até em cimento.


A gente confunde força com barulho. Mas força, muitas vezes, é só permanecer inteiro quando tudo te convida a murchar.


Talvez você também tenha esse jeito de flor no deserto: bonito, sereno, aparentemente frágil. Aí a vida te coloca no sol escaldante do boleto e no frio cortante do diagnóstico. E é nesse extremo que você percebe: debaixo da pétala existe raiz. E raiz, quando quer viver, quebra pedra.


A gente só mede a própria força quando ser forte vira a única saída que restou.


E no fim, você se torna aquilo que sempre foi: sinal de esperança pra quem te observa do carro, achando que a vida é só aridez.


ATÉ NA SECA A GENTE FLORESCE.


Gratidão sempre

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