Lealdade não é Acobertar. É não Abandonar
- Valdivino Clarindo Lima

- 23 de jan.
- 2 min de leitura
BOM DIA!

23 de janeiro de 2026
O fórum já estava em pleno funcionamento.
Corredores cheios, passos apressados, vozes baixas misturadas ao eco das decisões que ali se constroem todos os dias. Em ambientes assim, o tempo pesa diferente. Cada palavra importa. Cada escolha deixa rastro.
Eu aguardava o início de uma audiência. Processo sensível. Expectativas altas. Pressões silenciosas. Do meu lado, um colega de profissão com quem eu dividia a causa, mas, principalmente, a responsabilidade ética que ela carregava.
O erro havia acontecido.
Nada que comprometesse a verdade dos fatos, mas suficiente para gerar desconforto. Um detalhe processual, uma decisão tomada em confiança, daquelas que o Direito exige coragem - e que, se algo dá errado, sempre procuram um nome para carregar o peso.
Quando a questão veio à tona, veio seca, objetiva, como o ambiente costuma ser:
-Quem assumiu essa condução?
O silêncio tomou a sala por alguns segundos.
No Direito, silêncio raramente é neutro.
Eu sabia que poderia me preservar. Bastava esclarecer tecnicamente, deslocar responsabilidades, seguir o caminho mais seguro. O sistema permite. Às vezes, até incentiva.
Mas antes que qualquer explicação estratégica surgisse, ele se manifestou:
-Fui eu - disse, com serenidade. -A decisão passou por mim.
Olhei para ele.
Ele sustentou o olhar.
Não era toda a verdade.
Mas era lealdade.
A audiência seguiu. Os esclarecimentos foram feitos. O processo manteve seu curso. Nada ruiu. Nada explodiu. Mas algo ali se afirmou com força silenciosa.
Mais tarde, já longe das formalidades, perguntei:
-Por quê?
Ele respondeu com simplicidade, sem retórica:
-Porque no Direito a gente pode até errar na forma, mas não pode falhar no caráter. E porque lealdade não é acobertar. É não abandonar.
Guardei aquilo.
No exercício da advocacia, somos treinados para argumentar, sustentar teses, enfrentar conflitos. Pouco se fala, porém, sobre permanecer leal quando o risco não é teórico, mas pessoal.
Ser leal não é concordar sempre. Não é fechar os olhos para o erro. É dividir o peso quando ele aparece.
Num meio onde reputações são construídas e destruídas com facilidade, a lealdade é um compromisso silencioso com a dignidade do outro - e com a própria.
E talvez seja isso que ainda sustente o Direito como vocação: advogados e advogadas que, mesmo sob pressão, escolhem não negociar aquilo que os define.
Porque, no fim, não é o processo que nos revela.
É a postura.
Gratidão sempre.



Comentários