Entre o palco do Tribunal do Júri e o palco do Teatro da Vida
- 23 de fev.
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BOM DIA!

O “bom dia” que pronunciei ao entrar no Tribunal do Júri soou quase como o ensaio de um ato difícil. Hoje, o ar ali era denso. Havia um silêncio pesado que antecedia cada palavra, como se o ambiente inteiro soubesse que decisões humanas jamais são simples.
Eu estava ali como assistente de acusação. Mais do que representar um papel jurídico, eu estava diante de uma história cheia de escolhas sombrias da alma humana.
O réu trazia a culpa impressa no rosto. Admitiu o crime. Mas a confissão não preenchia o abismo. Olhei para a família da vítima. A dor permanecia intacta. Dez, vinte, trinta anos de reclusão… nenhuma matemática jurídica seria capaz de calcular o peso de uma ausência eterna.
A dialética jurídica se desenrolou como uma coreografia tensa.
O promotor brandia a espada da acusação.
O defensor erguia o escudo da defesa.
Argumentos firmes. Teses bem construídas. Estratégias legítimas.
Mas, no meio daquele fogo cruzado, a perda continuava ali - testemunha silenciosa das falhas humanas.
No Tribunal do Júri não lidamos somente com artigos de lei. Lidamos com dramas reais. Com a dor de quem perdeu um ser amado. Com o medo de quem pode perder para a prisão. Com a responsabilidade imensa dos acusadores e defensores que não devem permitir que a justiça se transforme em injustiça.
E foi justamente ali, naquele cenário austero, que minha mente buscou refúgio na arte.
E pensei com com alivio:
Em breve, deixarei o peso do júri para subir ao palco do Teatro Marie Padille. Lá, dou vida ao “Landin”, personagem simples, direto, quase ingênuo - mas carregado de humanidade. Ele diz, com leveza e bom humor, o que muitos pensam e não ousam falar.
Que contraste.
No palco do Tribunal, a minha palavra é contida, medida, técnica.
No palco do Teatro, ela é livre.
No júri, a dor é crua.
No teatro, ela pode ser transformada.
Percebi que ambos são palcos. Um é o palco da dor. O outro, o palco da vida.
Ali, no julgamento, encenamos uma tragédia real. No teatro, representamos a vida para compreendê-la melhor. Em ambos, o ser humano está exposto - com suas escolhas, suas quedas e suas possibilidades.
Entendi que a justiça é um limite necessário. Ela organiza a responsabilidade. Mas o perdão é um horizonte íntimo. Ele não anula o crime. Não substitui a sentença. Mas pode libertar por dentro.
Todo julgamento, no fundo, ecoa a mesma mensagem:
não ao crime, sim à vida.
Mas não uma vida qualquer.
Uma vida consciente.
Uma vida responsável.
Uma vida que entende o valor da liberdade.
Aproveitar a liberdade é escolher diariamente o teatro da vida - e não o teatro da dor. É optar por construir, e não destruir.
Saí daquele Tribunal com a toga no braço e uma certeza no peito: a justiça pune quando necessário. Mas só a escolha pela luz transforma os seres humanos.
Entre o crime e a arte, eu escolho o caminho que constrói.
Escolho o palco que celebra a existência.
Gratidão sempre.



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