Enxergar Além do Envelope
- Valdivino Clarindo Lima

- 22 de jan.
- 2 min de leitura
BOM DIA!

22 de janeiro de 2026
Eu caminhava pela vila ainda cedo.
Ruas de terra, poucas casas acordando devagar, o silêncio típico das manhãs na pequena cidade interiorana. O corpo seguia o caminho conhecido, mas a mente já havia partido antes, ocupada com pensamentos embaralhados e o dia se organizando por dentro.
Foi quando o vi.
Estava parado à margem da estrada. Um senhor de aparência cansada, roupas gastas, meio sujas, marcadas pelo tempo. À primeira vista, alguém que muitos chamariam de andarilho - desses que passam despercebidos.
Continuei caminhando por alguns passos.
Depois, parei.
Havia algo fora do lugar naquele julgamento rápido.
As roupas, embora surradas, formavam um conjunto curioso. Um paletó antigo, calça bem cortada, camisa que um dia fora clara. Tudo denunciava abandono, mas também revelava outra coisa: aquelas peças haviam conhecido dias melhores. Não eram trapos. Eram memória.
Voltei alguns passos.
-Bom dia… tudo bem? - perguntei, com aquele tom quase automático que raramente espera resposta verdadeira.
Ele levantou os olhos devagar. Olhos atentos, vivos.
-Na medida do possível… maravilhosamente bem - respondeu. -Repare: o dia está fresco, o mato ainda verde, e o cheiro de terra molhada nos lembra que hoje pode ser um dia promissor.
Olhei em volta.
Era verdade.
A manhã estava leve. E, de repente, percebi que quem estava pesado era eu.
-O senhor sempre fica por aqui? -arrisquei. - Está esperando alguém?
Ele sorriu de lado, como quem já esperava aquela pergunta.
-Sempre estou esperando - respondeu. Sempre procurando.
A curiosidade venceu qualquer pressa.
-Procurando quem?
Ele me olhou com atenção, não minhas roupas, mas meus olhos. Como se buscasse algo ali.
-Procuro quem vê - disse, por fim. -Quem observa sem pressa. Quem ainda acredita. Pessoas de mente aberta, livres de preconceitos. Gente com disposição para aprender, crescer, evoluir.
Engoli em seco.
-E encontra? perguntei.
-Todos os dias - respondeu, com tranquilidade. -Hoje, por exemplo, encontrei você.
Fez uma breve pausa, como quem escolhe as palavras certas.
-Mesmo com pressa aparente, você parou. Observou. Questionou. Foi além do que parecia óbvio. Viu o que poucos veriam. Enxergou além do envelope.
Foi ali que algo se reorganizou dentro de mim.
Eu já não estava diante de um andarilho.
Aqueles olhos carregavam esperança. Não ingênua, mas firme. Uma esperança por um futuro menos manchado por julgamentos apressados, menos refém das aparências.
-Quem é o senhor, afinal? perguntei.
Ele respondeu com simplicidade, como quem não precisa de títulos:
-Sou alguém que ainda acredita em uma sociedade mais justa. Mais consciente. Mais humana.
Despediu-se com um leve aceno.
-Tenha um excelente dia. Sigamos em frente. O dia promete.
A vida promete.
Continuei meu caminho pela vila diferente.
Mais atento.
Menos distraído.
Porque, às vezes, é no encontro mais simples da manhã que a vida nos educa - em silêncio.
Gratidão sempre.



É verdade , a correria as vezes nos cega e faz de nós ingratos.
Valeu a pena parar esse instante e ler essa belíssima reflexão. Obrigada, meu dia hoje começou diferente. 👏🏻👏🏻👏🏻🥰
Renovei o meu dia obrigado
Perfeito 👏🏻👏🏻👏🏻
Grande aprendizado, gostoso de ler. Obgd