A Justiça Pode Começar no Olhar de uma Criança
- Valdivino Clarindo Lima

- 30 de jan.
- 3 min de leitura
BOM DIA!

O sol da tarde entrava pela janela do meu escritório, iluminando a sala com um tom de esperança. À minha frente, um jovem, quase uma criança, de olhos grandes e ansiosos me observava com um misto de curiosidade e desespero.
- Doutor, o senhor me ajuda? - perguntou, com a voz tristonha.
Sorri com gentileza e me inclinei para a frente.
- Claro, meu jovem. O que está acontecendo?
O jovem respirou fundo antes de falar:
- É que… eu queria que o senhor reunisse meu pai e minha mãe. Eles não estão mais juntos, e minha mãe está sofrendo muito. Ela trabalha o dia todo para nos alimentar, e eu e meu irmão ficamos sozinhos em casa. Meu pai… ele foi preso, mas não fez nada de errado. A sociedade é que foi má com ele.
A voz, que falava como a de um adulto, começou a tremer.
Franzi a sobrancelha, atento.
- Entendo. E o que você quer que eu faça, exatamente?
- Quero que o senhor faça meu pai sair da prisão e voltar para casa. E que ele e minha mãe voltem a ser felizes, como eram antes.
Aquele olhar suplicante me atravessou.
Senti um aperto no coração. Eu sabia que a situação era mais complexa do que aquele jovenzinho imaginava, mas também sabia que não podia ignorar aquele pedido.
- Vou fazer o meu melhor, rapaz. Mas preciso que você me conte mais. Por que seu pai foi preso?
Com lágrimas nos olhos, ele começou a explicar como o pai havia sido acusado de um crime que não cometera e como a sociedade havia se voltado contra ele, sem lhe dar chance de defesa.
Ouvi em silêncio, registrando mentalmente cada detalhe.
- E sua mãe, como ela está? - perguntei ao final.
- Ela está triste, doutor. Chora muito à noite, quando acha que eu e meu irmão estamos dormindo. Diz que vai ser forte por nós… mas eu sei que ela está sofrendo.
A voz se quebrou.
Uma mistura de indignação e compaixão tomou conta de mim.
- Vou tentar libertar seu pai e reunir sua família novamente. Mas você precisa ser forte e ter fé.
Ele assentiu, enxugando as lágrimas.
- Certo, moço, quer dizer, doutor, eu prometo.
Levantei-me, estendi a mão e sorri:
- Então vamos fazer isso juntos. Vamos trazer sua família de volta.
Dali nasceu uma amizade, marcada por idas, vindas e longos dias de espera.
O processo foi difícil e demorado. Meses de luta, provas reunidas, resistência enfrentada. Até que, enfim, consegui demonstrar a completa inocência daquele homem. Ele foi libertado.
A família se reuniu novamente. A alegria voltou a habitar aquela casa. A mãe, que havia carregado tudo sozinha por tanto tempo, pôde finalmente descansar e se sentir amparada.
Havia, porém, algo que ainda precisava ser enfrentado.
Ao chegarem em casa, a vizinha - a mesma que havia alimentado boatos - os aguardava. Disse-se arrependida. Admitiu que havia ouvido versões, repetido palavras, muitas delas vindas do ambiente que dizia frequentar por fé, a sua igreja.
O pai a ouviu com calma e respondeu apenas o necessário:
- Ouvir e acreditar sem conhecer é o início do preconceito. E o preconceito destrói vidas.
Houve silêncio.
Depois, ele acrescentou:
- Eu perdoo. Mas é preciso lembrar: antes de qualquer rótulo, sou um homem. E dignidade não se negocia.
Nada mais foi dito. Não era preciso.
Ali compreendi que o preconceito não se desfaz com discursos longos, mas com a disposição real de escutar, reconhecer e aprender.
Sorri, em silêncio. A lição estava dada.
A família seguiu adiante, reunida, consciente de que alguns obstáculos não desaparecem - são superados.
O bem não faz alarde.
Mas vence!
Gratidão sempre.



Ótimo !!!
Fazer o bem exige proposito, esforço e dedicacao, mas é isso qye o Criador esoera de nós.